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Nova pandemia? Estudo aponta riscos na BR-319 e na mineração em Autazes

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Nova pandemia? Estudo aponta riscos na BR-319 e na mineração em Autazes


Amazonas – Um grupo de cientistas brasileiros e internacionais divulgou um alerta sobre os possíveis impactos sanitários de grandes projetos de infraestrutura na Amazônia. De acordo com os pesquisadores, a pavimentação da BR-319 e a expansão da mineração de potássio em Autazes podem aumentar o risco de surgimento de novos patógenos, criando condições favoráveis para futuras crises de saúde pública em escala global.
A conclusão faz parte de um estudo técnico-científico desenvolvido por 19 especialistas, entre eles o pesquisador Philip Fearnside, vencedor do Nobel da Paz como integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O trabalho foi publicado na revista científica Science, uma das mais respeitadas do mundo, sob o título Amazon infrastructure poses biosecurity risks (“A infraestrutura na Amazônia apresenta riscos à biossegurança”).
Segundo os autores, a abertura de novas áreas de floresta, impulsionada por obras de infraestrutura, atividades minerárias e expansão econômica, pode intensificar o contato entre seres humanos e microrganismos ainda pouco conhecidos, aumentando a possibilidade de transmissão de doenças antes restritas aos ecossistemas amazônicos.
Além da publicação científica, os pesquisadores encaminharam uma carta ao Vaticano, direcionada ao cardeal Michael Czerny, responsável pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. O documento pede atenção internacional aos impactos ambientais e sociais dos empreendimentos previstos para a região amazônica e defende medidas voltadas à proteção da biodiversidade e das populações tradicionais.
No texto, os cientistas afirmam que a consolidação da BR-319 poderá afetar diretamente dezenas de comunidades indígenas pertencentes a diferentes etnias, enquanto a mineração em Autazes pode atingir territórios tradicionalmente ocupados pelo povo Mura. Para o grupo, os impactos vão além das questões ambientais, envolvendo também riscos à saúde coletiva, alterações nos modos de vida das populações locais e maior vulnerabilidade social.
Os pesquisadores utilizam a expressão “caixa de Pandora epidemiológica” para ilustrar o cenário. Segundo eles, o avanço do desmatamento e a transformação acelerada da floresta podem expor comunidades microbianas ainda desconhecidas pela ciência, criando condições para o aparecimento de novas doenças com potencial de disseminação.
O estudo também critica o enfraquecimento das regras de licenciamento ambiental e defende que grandes empreendimentos na Amazônia sejam avaliados não apenas sob o ponto de vista econômico, mas também pelos possíveis efeitos sobre a biodiversidade, a segurança sanitária e os direitos das populações tradicionais.
Embora os cientistas ressaltem que o risco não representa uma previsão de que uma nova pandemia ocorrerá, o trabalho destaca que a prevenção passa pela preservação ambiental, pelo monitoramento científico e pela adoção de políticas públicas capazes de reduzir o avanço desordenado sobre áreas de floresta ainda preservadas.
A publicação amplia o debate sobre os impactos da expansão da infraestrutura na Amazônia e reforça a necessidade de integrar desenvolvimento econômico, conservação ambiental e proteção da saúde pública nas decisões sobre o futuro da região.