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Amazonas

“Quando disseram que meu filho estava vivo, foi o suficiente”, diz pai de professor atingido por aluno em Manaus

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“Quando disseram que meu filho estava vivo, foi o suficiente”, diz pai de professor atingido por aluno em Manaus


Manaus – O pai do professor  Vinicius Siqueira Figueiredo , de 23 anos, ainda não conseguiu assistir às imagens que mostram o seu próprio filho sendo esfaqueado por um aluno durante uma aula de reforço em Manaus. Para ele, ver o vídeo significaria reviver um pesadelo interminável e sufocante que começou quando o jovem, seu único filho, saiu de casa para trabalhar e terminou hospitalizado após sofrer, segundo a família, nove golpes de faca.
“Eu não vi as imagens ainda, não tenho coragem de ver como pai. Meu filho é o Vinícius, é o Vini, é o meu único filho de 23 anos”, contou, emocionado. Universitário, Vinícius trabalha há cerca de dois anos dando aulas particulares para conseguir o próprio sustento. “Para ganhar o seu dinheirinho, seu pouquinho de dinheirinho para sobreviver, ele dá aula de reforço particular”, relatou o pai.
O ataque aconteceu enquanto Vinícius dava aula individual para um adolescente de 15 anos. Nas imagens registradas dentro da sala dá pra ver o professor sendo surpreendido em um ‘repente’ do aluno, enquanto estava próximo ao quadro.
De acordo com a advogada da família, Caroline Frota, foram nove golpes, desferidos com muitaforça e intenção. Ela afirma que nenhuma das perfurações atingiu órgãos vitais, por muita sorte e que o professor conseguiu lutar para escapar da agressão.

O mais impressionante é a carga de adrenalina que o professor deve ter sentido no momento para ser capaz de ainda se levantar, correr e fugir, depois de tantos golpes.
Após ser atendido no Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto, ele foi transferido para o Hospital Check-up, onde permanecia internado e passava por avaliação médica para descartar possíveis lesões internas.
Para o pai, saber que Vinícius havia sobrevivido tornou qualquer outra preocupação fútil, talvez até momentaneamente irrelevante, pois bastou saber que seu filho ainda tinha ar nos pulmões e não havia lhe abandonado nesta vida. “Ontem ele tava no 28 de Agosto e, quando o médico falou: ‘Olha, ele tá vivo’, pra mim foi o suficiente”, disse.
“Eu nem me lembrei mais de nada, se ia ter inquérito, se não ia ter inquérito. Pra mim, ele tava vivo.” Em outro momento, ele falou resumindo o impacto da violência sobre a família: “Eu tô com o coração destroçado, destroçado. É meu único filho”.
Apesar de fisicamente fora de perigo naquele momento, a família afirma que as consequências não terminaram com os ferimentos. Segundo a advogada, Vinícius apresenta sinais de estresse pós-traumático, medo e insegurança depois do ataque. “Vinícius está em estresse pós-traumático, com muito medo de ser morto, muito inseguro, e a família muito chocada”, declarou Caroline.

Claramente esse ‘pós’ acidente, será um momento extremamente delicado e muito difícil para toda a família. Uma família que terá de reaprender a viver, mas sempre com uma sombra em sua volta, de um pesadelo real que não teve final fatal, mas deixou suas marcas.
Um dos pontos mais graves apresentados pela defesa envolve o que teria ocorrido imediatamente depois da agressão. Segundo Caroline, uma testemunha relatou que o pai do adolescente teria ido ao local após o ataque, encontrado Vinícius ferido e não prestado socorro.
Simplesmente haveria ignorado o absurdo que ali havia acabado de ocorrer sem prestar nenhuma ajuda. A advogada afirma que quem chamou o Samu foi um profissional que ouviu os gritos e foi até o local. Essa versão foi apresentada pela defesa da vítima e deverá ser apurada pelas autoridades.
“Eu quero que o pai haja com o mínimo de dignidade e apresente o seu filho e venha se explicar por que não prestou socorro ao Vini”, cobrou a advogada.
Ainda de acordo com o registro policial, o suposto autor da agressão é menor de idade. 
A advogada questionou o motivo pelo qual o adolescente não teria sido apresentado imediatamente à polícia e afirmou que a família busca sua responsabilização dentro dos procedimentos previstos para menores de idade.
A defesa sustenta ainda que o adolescente teria levado a faca previamente para a aula, circunstância que, na avaliação da advogada, indicaria preparação para a agressão. Ou seja, algo supostamente premeditado.
Caroline também afirmou que houve discussão inicial sobre a classificação do caso no momento do registro policial, defendendo que a violência registrada nas imagens seja investigada como tentativa de homicídio. A definição jurídica, contudo, caberá às autoridades responsáveis pela investigação.
Sobre a motivação, ainda não existe uma conclusão oficial. A advogada relatou ter recebido de uma professora a informação de que o adolescente estaria frustrado após obter uma nota baixa, possivelmente nota 3, na escola. Ela própria tratou o dado como uma hipótese para explicar o que pode ter antecedido a agressão. Ou seja, o motivo mais provável é o adolescente ter atribuído ‘culpa’ ao seu professor de reforço por seu mau desempenho na prova.
Questionada sobre relatos de comportamento retraído do adolescente, Caroline evitou relacioná-los a qualquer transtorno. “Eu, como advogada e como pessoa, não posso afirmar e dizer que ele tem uma questão psiquiátrica. Isso quem vai dizer é um profissional”, ressaltou.
Afinal de contas ultimamente ,o que mais se vê são casos sendo ‘justificados’ com transtornos mentais para reduzir as responsabilidades do culpado. Em vários casos, inclusive isso virou explicitamente uma ‘rota de fuga’.
Para a família, o episódio se torna ainda mais difícil de compreender por causa da rotina de Vinícius. O jovem é descrito pelos familiares como dedicado aos estudos e ao trabalho e havia começado a dar aulas ao adolescente havia poucas semanas. “Ele é um menino de ouro, um rapaz de ouro (…) meigo, não tem agressividade, não trata mal ninguém”, disse a advogada ao falar sobre o professor.
O pai, que disse nunca ter dado entrevistas, afirmou que decidiu falar publicamente porque agora quer justiça para o único filho. “Não há nada que possa justificar tamanha violência”, declarou. Antes de encerrar a entrevista, já sem conseguir conter a emoção, voltou ao que naquele momento mais importava para ele: Vinícius está vivo.
O caso está sob apuração da Delegacia Especializada em Apuração de Atos Infracionais (Deaai). Por envolver um adolescente, as medidas aplicáveis seguem as regras previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente. A motivação, a dinâmica completa do ataque e as demais responsabilidades ainda deverão ser esclarecidas pela investigação.